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domingo, 15 de agosto de 2010

Receita de engolir o mar


o mar ensina
o equilíbrio-desequilíbrio
dos barcos
a rota da calma e do vento
o mar ensina horizontes
vôo e mergulho
o mar ensina tempestade
e silêncio

Roseana Murray

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Vende-se

Vende-se uma casa encantada
no topo da mais alta montanha.
Tem dois amplos salões
onde você poderá oferecer banquetes
para os duendes e anões
que moram na floresta ao lado.
Tem jardineiras nas janelas
onde convém plantar margaridas.
Tem quartos de todas as cores
que aumentam ou diminuem
de acordo com o seu tamanho
e na garagem há vagas.

Roseana Murray

sábado, 31 de julho de 2010

Pião


Um pião se equilibra
na palma da mão,
no chão, na calçada,
e alado vai rodando
por cima dos telhados,
gira entre as nuvens,
cada vez mais alto,
até que num salto
alcança a lua
e rola
até o seu lado oculto.
Faz a curva o pião
e ruma para Saturno,
tropeça nos anéis,
dá três cambalhotas,
se pendura
numa estrela cadente
e, sem graça,
volta para a palma da mão.

Roseana Murray

sábado, 6 de março de 2010

Casa de amigo

Na casa do amigo
os móveis flutuam
a um palmo do chão.

O ar é mais leve:
em cada recanto
os pássaros tecem.

Na casa do amigo
todas as confidências
são permitidas.

Todas as palavras
são entendidas
tão facilmente,
que é como água
falando com água.

Na casa do amigo
o coração se alimenta.

Roseana Murray

O pirata

O menino brinca de pirata:
sua espada é de ouro
e sua roupa de prata.
Atravessa os sete mares
em busca do grande tesouro.
Seu navio tem sete velas de pano
e é o terror do oceano.
Mas o tempo passa e ele se cansa
de ser pirata.
E vira outra vez menino.

Roseana Murray
No mundo da lua.
Belo Horizonte: Miguilim.[s.d.] p.23 (Coleção Bem-te-vi)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Menino que mora num planeta azul feito a cauda de
um cometa quer se corresponder com alguém de outra
galáxia.
Neste planeta onde o menino mora as coisas não vão
bem assim: o azul está ficando desbotado e os
homens brincam de guerra.
É só apertar um botão que o planeta Terra vai pelos
ares...
Então o menino procura com urgência alguém de
outra galáxia para trocarem selos, figurinhas e
esperanças.

Habitante de outra galáxia aceita corresponder-se com
o menino do planeta azul.
O mundo deste habitante é todo feito de vento e
cheira a jasmim.
Não há fome nem há guerra, e nas tardes perfumadas
as pessoas passeiam de mãos dadas e costumam rir à
toa.
Nesta galáxia ninguém faz morte, ela acontece
naturalmente, como o sono depois da festa.
Os habitantes não mentem, e por isso os seus olhos
brilham como riachos.
O habitante da outra galáxia aceita trocar selos e
figurinhas e pede ao menino que encha os bolsos de
esperanças, e só os bolsos, mas também as mãos,
e os cabelos, a voz, o coração, que a doença
do planeta azul ainda tem solução.

Roseana Murray.

terça-feira, 25 de novembro de 2008